quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Outdoor de grife!

Desde a semana passada eu quero postar a crônica do Walcyr Carrasco para a Veja SP (nossa querida Vejinha) falando da necessidade que as pessoas têm de ostentar grifes. Eu acho o ó e conversando com Lili Montemor, outro dia, falávamos sobre a crônica e ela me disse: posta no blog! Então... aí está, na íntegra!

Estou cercado de roupas. Camisetas, calças, bermudas e casacos se amontoam em torno de mim. O vendedor corre de um lado para o outro à procura de peças que possam conter minha barriga. O que, convenhamos, nem sempre é uma tarefa fácil. Vejo de longe uma camiseta colorida.
— Quero essa! — aviso.
Ele encontra meu número. E que maravilha, é laaarga! Mas, na frente, em letras garrafais, está estampado o nome da grife. Boto de lado.
— Não tenho vocação para outdoor — explico.
— Mas todo mundo valoriza isso — ele argumenta.
Explico que mesmo assim não quero. E começa o problema. Quase todas as peças ostentam a marca. Transformam a roupa em propaganda. Saio sem comprar praticamente nada.
Boa parte das pessoas que conheço age de maneira oposta. Adora exibir a etiqueta. E, se não está aparente, dá um jeito de dizer qual é. Mulheres mostram, orgulhosas, malas e bolsas de uma marca conhecida com as iniciais do criador por todo lado. Eu acho supercafona.
Tenho uma amiga que só consegue comprar roupas e peças caras. Sente-se chiquérrima. Mostra a bota e avisa que é da marca tal. Estende o pulso, exibe o relógio, é de outra. Gasta uma grana que não tem. Paga tudo em vezes suadas. Será chique estourar o cartão de crédito? E para quê? Mal se vira, as amigas, também carregadas de grifes, comentam:
— Ah, mas aquelas botas não ficaram bem para ela.
— O vestido não faz o gênero dela. Parece pendurado num varal!
Fiquei sabendo que garotos de periferia se matam para comprar uma camiseta de etiqueta famosa em dez pagamentos. Botam orgulhosos, é sua melhor roupa. E, claro, querem ostentar a marca. Assim sentem que pertencem a um mundo do qual, de fato, não fazem parte. Mas eles eu entendo. Vivemos em uma sociedade que, na prática, tem preconceito contra a pobreza.
Ser “chique”, “elegante”, é um valor implantado desde cedo na cabeça das crianças. Como se a pobreza fosse vergonha, um fracasso pessoal. A roupa de grife supostamente avaliza a entrada em um mundo da elite. Só supostamente, óbvio. Isso explica as garotas que compram bolsas com as famosas iniciais em camelôs. Falsas! (Aliás, bolsa fake existe em todo o mundo.) Mas e daí se são clonadas? A maioria das pessoas nem percebe. Ainda mais de noite, na balada. Às vezes estou numa festa e observo as pessoas ostentarem suas roupas e peças. Vou dando mentalmente apelidos:
“Aquela lá é a senhorita dez vezes sem acréscimo”.
“Aquele botou a camiseta do camelô e está se sentindo o máximo”.
O que me espanta é que até pessoas bem de vida querem parecer mais através das marcas. A necessidade de status é tão grande que artistas e até socialites costumam pedir emprestados joias e carros de luxo para ir a festas e programas de televisão!
Reconheço: roupas e peças de grife se tornaram desejadas porque oferecem desenhos especiais, tecidos bons. Caem melhor no corpo. Assim, não acho errado usar esses produtos. Mas não se pode esquecer: nomes nacionais também oferecem o mesmo caimento e elegância. O que eu acho tremendamente cafona é se transformar em vitrine, ostentando o nome dos fabricantes por todo o corpo. A pessoa fica igual a uma geladeira carregada de ímãs. Na última vez, quando o vendedor me apresentou a décima peça estilo outdoor, perguntei:
— Mas quanto vão me pagar para fazer propaganda da marca?
Quase fui expulso. Acho que ele nunca tinha ouvido essa pergunta. E, para mim, não haveria nada mais lógico.

9 comentários:

  1. Plenamente certo Walcyr!.
    Péssimo ser escravo da etiqueta,este comportamento é para pessoas inseguras, que usam a grife como muleta ou trampolim para serem aceitas. Vamos acordar pessoas!

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  2. Curti mil vezes !! Tem muita gte que deveria ler isso e colOcar em prática !!!

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  3. Isso lembra o livro da Naomi Klein (Jornalista premiada e colunista do New York Times). O Livro " No Logo", em portuquês " Sem Logo" ( A Tirania das Marcas em um Planeta Vendido.
    Não sou contra as marcas, o problemas é o fato das pessoas as ostentarem. E isso numa sociedade em que o "ter" vale mais que o "ser", torna-se o alicerce para a exclusão e a discriminação social.
    Clara Kaufman

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  4. Rita Escobar Sanches1 de setembro de 2011 08:09

    Dani, outdoor essa é boa. concordo plenamente com o texto. Sou a favor do conforto!!!!!

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  5. Mas que a GRIFE ´´e boa , é boa.
    Ah seu pudesse e meu dinheiro desse...........

    ah..........

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  6. Ser chique vai muito além das etiquetas e ostentações!
    Há pessoas que podem vestir "ouro", mas a essência será sempre brega. Por outro lado, conheço pessoas que, mesmo estando com uma bata branca básica da Marisa e uma calça surrada são chiquérrimas! O que importa é a essência das pessoas. É isso que as torna belas e chiques!
    bjux

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  7. Pois é... a propaganda da marca é feita com o nosso dinheiro. Quer dizer, não com o meu... não posso esbanjar, e mesmo quando me permito um gasto maior é consciente de que estou investindo na qualidade do produto, não numa ostentação. Quando vejo uma marca estampada penso logo "como tal marca é esperta, recebeu (se aproveitou dos deslumbrados) para fazer a própria propaganda". Rsrs.

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  8. Amei esse texto. Penso como ele. Não ligo para marcas de roupa, e sim se é bonita e veste bem. Não gosto de pagar caro também, apenas o justo.

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  9. concordo,oh mundo capitalista!!!

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